quinta-feira, 7 de abril de 2011

João Cabral de Melo Neto

CEMITÉRIO PERNAMBUCANO
(NOSSA SENHORA DA LUZ)

Nesta terra ninguém jaz,
pois também não jaz um rio
noutro rio, nem o mar
é cemitério de rios.

Nenhum dos mortos daqui
vem vestido de caixão.
Portanto, eles não se enterram,
são enterrados no chão.

Vêm em redes de varandas
abertas ao sol e à chuva.
Trazem suas próprias moscas.
O chão lhes vai como luva.

Mortos ao ar livre, que eram,
hoje à terra livre estão.
São tão da terra que a terra
nem sente sua intrusão.

PAISAGENS COM FIGURAS (1954-1955)

2 comentários:

Mr. Anônimo disse...

É de bom conteúdo,
nem longo nem confuso,
é a parte que falta
nas minhas leituras.

MisterJaPa disse...

@Mr.Anônimo
Ótimo comentário!

Só pra coplementar:
http://letras.terra.com.br/chico-buarque/45132/