sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Encontro

Além de nós dois, naquela saleta, mais um casal ocupava o espaço que já era pequeno, abarrotado de equipamentos. Mesmo com as grandes janelas, parecia que o ar estava em falta ali. Não que fôssemos um casal, que isso fique claro. Com aquela música ao vivo, aquela luz quase inexistente, falávamos ao pé do ouvido um do outro para não chamar a atenção ou, mesmo, atrapalhar o show em andamento. Você esforçava-se a me ensinar sobre dobradura pela milésima vez e eu fingia nada saber, apenas seguindo cada passo, compenetrada, analisando cada expressão do seu rosto, cada movimento de suas mãos. Ríamos um pouco alto, e foi quando a primeira repreensão foi feita. Acatamos. Dali a um tempo, veio a segunda repreensão, suficiente para você começar a se irritar. Quase levei minha mão aos seus lábios para evitar nova repreensão – algo me impediu. Apenas sorri e confirmei com a cabeça o que você dizia. Já nesta hora, crescia em mim o descontrole. Até que a dobradura que fazíamos, para passar o tempo, foi ao chão. Você se inclinou para pegá-la e se abaixou próximo das minhas pernas que pendiam do banco alto. Não pude evitar tocar-lhe. Você sentiu o meu toque e levantou a sua cabeça que, antes, voltava-se para o chão. Olhávamo-nos, sorríamos com os nossos olhos. A terceira repreensão veio mais incisiva e nos tirou de nosso transe, nosso momento de verdade, nossa paixão impossível, nosso segundo que dura uma vida inteira. Achei então prudente sair, deixá-lo só, antes que cabeças começassem a rolar.